Renata Rubim

Por Editor DesignBrasil

“Às vezes, o design de superfície fica numa fronteira bem delicada entre a arte e o design”

Carioca radicada em Porto Alegre, Renata Rubim é designer de superfícies e consultora de cores. É autora de Desenhando a Superfície, editado pela coleção Textos/Design da editora Rosari, de São Paulo. Trata-se do primeiro livro lançado no Brasil sobre este tema. Seu escritório Renata Rubim Design&Cores atende a clientes de diferentes segmentos. Entre eles, estão empresas como Termolar, Sanremo, Tok&Stok, Solarium Revestimentos e Saccaro.
Desde 1990, Renata ministra cursos e workshops em várias instituições de vários estados do Brasil. Desde 2006 vem desenvolvendo uma série de workshops de Criatividade e Design de Superfície em parceria com a ADP – Associação de Designers de Produto, em São Paulo.
Renata Rubim começou sua formação ainda nos anos 60, ao ingressar em 1967 no IADÊ, em São Paulo. Em 1985, ganhou uma bolsa de estudos Fulbright e freqüentou a Rhode Island School of Design, nos Estados Unidos. Um dos seus orgulhos é o fato de ter sido selecionada, no ano de 2005, em dois concursos do site www.designboom.com pelos trabalhos Simplicity (para azulejos com cristais Swarovski) e Door to Paradise (projeto adquirido pela empresa italiana Cocif.). Em 2006, ela recebeu destaque no mesmo site com a produção final do tapete Jujuba. O trabalho foi publicado na revista israelense Alma em outubro de 2006.

Confira a entrevista por e-mail para O DesignBrasil.DesignBrasil Quando você tem que explicar o que é design de superfície, para um empresário, por exemplo, de que modo o faz?

Renata Rubim Eu tento mostrar exemplos, mas depende de cada situação. Quando procuro um empresário normalmente já pesquisei seu produto e mercado e dou algumas idéias ou sugestões. O mais difícil é responder durante entrevistas – de rádio, por exemplo. Mas sempre uso exemplos como porcelanas, estampas de tecidos, tapetes, pisos, etc. para “ilustrar” melhor.

DesignBrasil Como surgiu seu interesse pelo tema e como você moldou sua carreira para esta vertente do design?

Renata Rubim O interesse sempre tive, já quando era muito pequena. Aos quatro anos, no jardim de infância, quando a professora perguntava o que eu tinha desenhado, mais de 60 ou 70% dos desenhos que tenho guardados, tem a informação “tapete de chão” ou chão pintado” ou parede pintada. Lembro perfeitamente do meu sonho de poder trabalhar com isto. Como eu moldei: comecei numa pequena empresa artesanal em Gramado aprendendo a tecer tapetes e tecidos em teares rudimentares. Depois fiz o IADÊ, em São Paulo, nos anos “de ouro” da escola (67 a 69). De São Paulo fui ao Rio trabalhar com o Haroldo Burle-Marx (jóias) e, em seguida, voltei a Gramado, onde fiquei 12 anos criando várias coisas e fazendo design de tapetes que mostrei em diversas mostras no Brasil e Estados Unidos. Daí em diante, vieram a Bolsa Fulbright na Rhode Island School of Design, no Departamento de Surface Design, a minha volta ao Brasil, a abertura do meu escritório e os meus projetos e muita, muita divulgação.

DesignBrasil Durante o lançamento do seu livro “Desenhando a Superfície” (Rosari), o material de imprensa dizia que, no Brasil, o Design de Superfície ou Surface Design, é praticamente desconhecido. Isso mudou?

Renata Rubim Mudou bastante a meu ver. Vários designers se identificaram com esta atividade e nomenclatura e a tem utilizado nos seus projetos. Aqui no Rio Grande do Sul, existe na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Departamento de Artes Visuais, o Núcleo de Design de Superfície, com vários trabalhos publicados. Tenho depoimentos de profissionais que migraram para o surface design depois de terem contato comigo ou com o meu livro. E estes mesmos colaboram com a informação, fazendo com que esta rede se amplie cada vez mais.

DesignBrasil Em resumo, qual a bagagem de competências que, em tese, diferem um profissional de surface design em relação a outros que, em geral, não têm esse tipo de conhecimento?

Renata Rubim O designer de superfícies normalmente tem um encanto especial por padrões (patterns) e/ou por texturas e cores. A bagagem pode ser em artes visuais combinada com uma boa dose em design (gráfico em geral), já que como qualquer profissional de design, ele deverá estar ligadíssimo a tendências, mercado, comportamentos. Além disto é interessante que seja também um cidadão consciente com suas responsabilidades sociais e ambientais.

DesignBrasil Certa vez, você disse que o design de superfície é todo design bidimensional que não tenha comprometimento com o design gráfico. Por quê?

Renata Rubim Porque o design gráfico, a meu ver, tem uma responsabilidade básica com a identidade do seu cliente. O profissional tem regras básicas da área de design gráfico, enquanto que o design de superfície tem quase sempre mais liberdades. Às vezes, o design de superfície fica numa fronteira bem delicada entre a arte e o design. Talvez assim eu consiga expressar melhor o meu sentimento a respeito.

DesignBrasil O design de superfície pode ser aplicado na indústria têxtil, de cerâmica, de papelaria, materiais sintéticos, entre outros. Qual a diferença no processo de desenvolvimento para cada tipo de material?

Renata Rubim Não no aspecto criativo propriamente. As diferenças são apenas relativas às propriedades de cada processo, de cada produto, das limitações inerentes a cada situação. Em qualquer uma, o designer, como todos os designers em geral, deve pesquisar e conhecer o processo inteiro do seu cliente: chão de fábrica, mercado, filosofia, capacidades, etc.

DesignBrasil De que modo o design de superfície contribui para as pesquisas de novos produtos e materiais na indústria?

Renata Rubim Penso que o que ocorre é o contrário: os novos materiais e tecnologias é que privilegiam muito a área do design de superfície. Além da linguagem e estilo, as diferenças são muito interessantes, abre-se uma possibilidade cada vez maior de aplicabilidade e uso do design de superfície.

DesignBrasil Além dos cursos, você mantém um escritório de consultoria em Porto Alegre. Como funciona o escritório? Você tem clientes fixos e que tipo de consultoria presta a eles?

Renata Rubim Meus clientes fixos são: Termolar (consultoria de novos desenhos, cores, tendências) e Sanremo (consultoria de cores e tendências). Além destes tenho desenvolvido projetos para a Solarium Pisos e Revestimentos (foi lançado este ano o Ellos, com bom resultado e estou em fase de novos produtos) e a Saccaro Móveis (estou iniciando criação de tecido e tapetes). Eventualmente crio para a Tok&Stok e atualmente tenho um grandíssimo painel externo numa obra de um teatro em Paulínia (SP).

DesignBrasil Seu projeto “A Door to Paradise” foi adquirido pela empresa italiana Cocif. Fale um pouco sobre este projeto e como foi que os italianos se interessaram por ele. Ele é distribuído em que mercado?

Renata Rubim O site www.designboom.com promove sempre concursos e quando eu vejo compatibilidade com o meu trabalho, eu me interesso. Acho altamente estimulante de vez em quando poder criar com mais liberdade, desvinculada de várias restrições e preconceitos comuns em nosso mercado. Então A Door to Paradise foi um destes que fui selecionada (o outro foi Tiles With Crystal, the Swarovski Design Award) e, além disto, a Cocif comprou o desenho. Tentei várias vezes descobrir detalhes como: se a peça foi produzida, como e para quem (local/mercado), mas até agora não consegui saber. Mas o pagamento – em Euros – foi feito!

DesignBrasil Conte-nos como foi o trabalho para a calçada do Café do Porto.

Renata Rubim Sempre quis desenhar calçadas. Desde a minha infância, no Rio, eu olhava com muita atenção calçamentos em geral. Portanto, eu “busquei” a calçada do Café do Porto – fazendo contato com as proprietárias do local na época (ambas arquitetas) e sugerindo fazermos algo diferente, já que aqui em Porto Alegre até então não se colocava as cadeiras e as mesas fora dos ambientes fechados dos cafés. No processo de criação usei como elemento base um referencial forte da empresa: a marca (o logotipo). A execução da obra foi das arquitetas.

DesignBrasil Quais são os cases mais interessantes que seu escritório desenvolveu para o setor de indústria?

Renata Rubim O Ellos (Solarium), o tapete Jujuba (Yasmin Tapetes), uma garrafa Café (Termolar, 2007), quatro linhas de porcelanas Coca-Cola para porcelanas Vista Alegre (está no meu site), 2002. DesignBrasil Fale um pouco mais sobre cada um desses cases.

Renata Rubim No caso do Tapete Jujuba, recebi o convite da loja Yasmin Tapetes para utilizar um dos meus desenhos, feito aos quatro anos de idade, e fazer uma releitura. As imagens estão disponíveis no meu site (o desenho original, um desenho para a execução e o tapete executado). Apresentei ao www.designboom.com, que publicou. Com isto, algumas pessoas fizeram contato e uma revista israelense, ALMA, focada em público jovem, também publicou o Jujuba. O case de Coca-Cola: a Porcelanas Vista Alegre fez um projeto com a Redibra, licenciadora da marca Coca-Cola no Brasil, de fazer quatro kits diferentes para venda em lojas de conveniência, dirigido a mercado jovem (adolescente e jovens adultos). Recebi o guide-file da matriz em Atlanta, mas tive bastante liberdade para criar. Decidi então fazer quatro conceitos: Adolescente Iceberg, em que utilizei como referencial o urso de campanhas publicitárias da empresa; Urbano Spontaneous, com um visual de pichação (ou grafitti); East West jovem contemporâneo (mente “arejada”); e Tropicália, para dar um visual mais brasileiro. Tanto os conceitos como os resultados foram aprovados sem restrições nos Estados Unidos. O projeto para a Ellos é um módulo de cimento, que tem os quatro lados diferentes (em curvas), permitindo um grande número de composições. Nos espaços vazios criados pode ser plantada grama ou colocados seixos (pedras). É um produto ambientalmente interessante, por causa da drenagem que possibilita. Por fim, para a Termolar. O processo de criação da garrafa Café 2007 foi superinteressante. Numa das reuniões da equipe da empresa, houve uma discussão sobre o que poderia se fazer e um funcionário da serigrafia da fábrica disse que o mais simples seria simplesmente se colar um papelzinho e escrever café”. Achei a idéia de uma simplicidade encantadora e resolvi brincar neste sentido. Talvez este exemplo seja mais um case interno, mas de qualquer maneira a garrafa está com bom desempenho de venda. * Entrevista concedida a Juan Saavedra.

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