Responsabilidade e regulamentação da profissão

Por Editor DesignBrasil

O meu envolvimento com a regulamentação da nossa profissão vem dos tempos de estudante de graduação em Desenho Industrial, na Universidade Federal de Pernambuco. Naquela época, particularmente durante os dois primeiros ENDI (Encontro Nacional de Desenhistas Industriais) em 1979 e 1981, a regulamentação era encarada de forma apaixonada por todos nós. Éramos motivados pelo discurso de profissionais já renomados como Joaquim Redig, Valéria London e João Roberto Costa do Nascimento (Peixe). Participávamos dos nossos eventos nacionais e acreditávamos que a nossa carreira profissional dependeria de uma profissão regulamentada e, assim, reconhecida e respeitada.

Foi grande a nossa frustração com o fracasso no encaminhamento do projeto de regulamentação aprovado no 1º ENDI. Esse projeto foi fruto de muito trabalho, realizado pelas pessoas que na época melhor compreendiam o importante papel da nossa profissão. Em seu Título I, Capítulo I, Artigo 1º, o projeto definia a profissão do Desenhista Industrial:

“A profissão do Desenhista Industrial se caracteriza pelo desempenho de atividades especializadas, de caráter técnico científico e criativo para a elaboração de projetos de sistemas e/ou produtos e mensagens visuais passíveis de seriação e/ou industrialização que estabeleça uma relação de contato direto com o ser humano, tanto no aspecto de uso, quanto no aspecto de percepção, de modo a atender necessidades materiais e de informação visual”.

O parágrafo único desse artigo reforçava o caráter da profissão:
“Em Desenho Industrial, o projeto é o meio pelo qual o profissional, equacionando dados de natureza ergonômica, tecnológica, econômica, social e estética responde concreta e racionalmente as necessidades do usuário”.

Ou seja, não se tratava de reservar mercado de trabalho para sujeitos criativos, mas de regulamentar a atividade profissional de pessoas com formação acadêmica compatível com as exigências de uma sociedade cada vez mais complexa.

Hoje, passadas duas décadas e meia, considero de forma mais madura, mais não menos apaixonada, que é extremamente importante para a sociedade brasileira que a nossa profissão, que passou a responder pelo nome de Design, tenha um conjunto de normas legais que garantam a sua prática de forma legítima e responsável. De forma legítima, por exemplo, no tocante a quem de direito cabe realizar projetos de sinalização urbana (dos quais por vezes somos excluídos por não termos o registro no CREA). De forma responsável, no sentido de que profissionais devem responder pelos seus atos. Uma embalagem, por exemplo, mais que um “ato criativo” é uma interface entre um usuário e um produto. Se for mal desenhada, ela pode fracassar no seu papel e as conseqüências poderão ser graves (para o usuário, para o fabricante e para a sociedade).
Concluo repetindo o que afirmei em um debate realizado pela Apdesign:

“Espero que os meus alunos, quando contarem sua versão da história [da regulamentação da profissão], possam dizer que a sociedade brasileira pode dormir e acordar tranqüila, pois os projetos que estarão sendo desenvolvidos terão profissionais assinando e assumindo a sua responsabilidade. Poderão garantir que médicos e enfermeiros atuando no ambiente estressante de serviços de emergência não cometerão erros, como ocorrem hoje ao confundirem medicamentos devido a embalagens mal desenhadas. Poderão garantir que qualquer pessoa conseguirá realizar uma atividade banal como regular a altura e a profundidade dos assentos de suas cadeiras de escritório, mesmo sem saber o que significa usabilidade ou ergonomia. Poderão garantir que as pessoas não entrarão em filas erradas, se ainda existirem, ou tomarão caminhos equivocados, pois a sinalização foi adequadamente projetada, considerando aspectos perceptuais, cognitivos e culturais do processamento de informação.Enfim, que a nossa sociedade estrá protegida daqueles que pensam que o designer é, apenas, um sujeito criativo e que, assim, qualquer um, sendo criativo, pode ser designer…hair designer…full designer…”

“Da ESDI aos ENDI, passando pelas APDINS: breve histórico dos primeiros esforços para institucionalizar o Design/Desenho Industrial no Brasil por meio de um projeto de regulamentação da profissão”;, texto apresentado no primeiro debate realizado pela Apdesign sobre a regulamentação da profissão, em 26/06/2003. Disponível emwww.apdesign.com.br.

Júlio Carlos de Souza van der Linden
Bacharel em Desenho Industrial (UFPE,1981) e Doutor em Engenharia (UFRGS, 2004). Coordenador do Núcleo de Ensino da Apdesign (Porto Alegre, RS). [email protected]

1 Comentário

  1. FAbio Cesar disse:

    A QUAl conselho VAI pertencer os designer