Ressignificação, uma possível estratégia para a sustentabilidade no século XXI. Parte 1.

Por Camilo Belchior

Para falar sobre ressignificação como uma ferramenta importante para o design do século XXI, precisamos de um pouco mais de tempo. Por isso, este artigo será dividido em duas partes. Iniciamos a primeira parte com uma introdução às questões que levaram a sociedade contemporânea à situação de hiperconsumo, finalizando com uma reflexão acerca de nossa relação com os objetos de consumo. Na segunda parte, trataremos especificamente da ressignificação no design.

Sabemos que as mudanças que ocorreram e ainda estão ocorrendo no comportamento do consumidor desde a metade do século XX, e seus reflexos na sociedade de um modo geral, em grande parte se devem à quantidade de informações a que somos expostos diariamente, em qualquer situação em que estejamos. Vivemos conectados vinte e quatro horas por dia, seja dentro de nossas casas, no trabalho ou andando pelas ruas e no trânsito. O crescimento tecnológico impulsionou uma série de modificações em nosso cotidiano, alterando hábitos e comportamentos.

A sociedade de consumo atual é caracterizada por um número muito alto de variedade de ofertas, pelo grande poder exercido pelos meios de comunicação de massa e pelo desenvolvimento econômico, que está completamente acelerado pelo avanço do capitalismo. O filosofo Jean Baudrillard nos fala, em seu livro “A sociedade de consumo”, que chegamos ao ponto em que o consumo invade toda a vida; em que todas as atividades se encadeiam do mesmo modo combinatório; em que o canal das satisfações se encontra previamente traçado, hora a hora; em que o envolvimento é total, inteiramente climatizado, organizado, culturalizado.

Numa sociedade recheada por discursos publicitários, que prometem a completa satisfação de todos os desejos dos consumidores, surge a possibilidade da decepção como um sintoma mais aparente dessa nova sociedade, colocando em questionamento o destino da escalada consumista.

Em “A sociedade da decepção” Gilles Lipovetsky constata que o principal sentimento que permeia nossa sociedade atual é a decepção, que compreende desde as frustrações pessoais e sexuais até os possíveis desapontamentos profissionais, comum em todos os níveis sócio-econômicos. Para o autor, o hiperconsumismo desenvolve-se como um substituto da vida que almejamos, funciona como um paliativo para os desejos não realizados de cada pessoa. O autor ressalta que, quanto mais se avolumam os dissabores, os percalços e as frustrações da vida privada, mais a febre consumista irrompe a título de lenitivo, de satisfação compensatória, como um expediente para reerguer o moral. Em razão disso, pressagia-se um longo porvir para a febre consumista.

Podemos entender que o processo consumista está arraigado numa série de outros preceitos, como num formato de rede, no qual o movimento de um afeta e provoca consequências no outro.

Para Deyan Sudjic, vivemos atualmente num mundo afogado em objetos, nunca possuímos tantas coisas como hoje, mesmo que as utilizemos cada vez menos. Para o autor, as casas em que passamos tão pouco tempo são repletas de objetos. Temos uma tela de plasma em cada aposento, substituindo televisores de raios catódicos que, há apenas cinco anos, eram de última geração. Temos armários cheios de lençóis; acabamos de descobrir um interesse obsessivo pelo ‘número de fios’. Temos guarda-roupas com pilhas de sapatos. Temos prateleiras de CDs e salas cheias de jogos eletrônicos e computadores. O autor acredita que tudo isso, na verdade, são nossos brinquedos: consolos às pressões incessantes por conseguir o dinheiro para comprá-los, e que, em nossa busca deles, nos tornamos infantilizados. Dessa forma, alimentamos cada vez mais uma sociedade de excessos, a durabilidade dos bens é encurtada, favorecendo o desperdício e o descarte prematuro dos objetos.

E a responsabilidade do design?

É fato que o design, ao longo do tempo, vem garantindo um papel fundamental no processo de criação de produtos. A velocidade e a dinâmica impostas pelo mercado, que podem vir de clientes, concorrentes, empresas, indústrias e outros, exigem do design flexibilidade e enfatizam a necessidade de dominar as várias formas de buscar e atingir o sucesso de um produto em um espaço de tempo cada vez mais curto.

A partir da sociedade industrial do século XX, até a sociedade do conhecimento, período em que vivemos atualmente, houve uma significativa mudança nos rumos da cultura material e, em consequência, no papel do design de forma geral. Estamos acompanhando o surgimento de novos métodos de design, que deixaram de se basear exclusivamente no trabalho individual para enfatizar trabalhos em equipe, valorizando o espírito de cooperação flexível entre diversos campos de conhecimento e a integração com outras áreas, como as ciências, a tecnologia, o gerenciamento, a cultura, as artes, entre outros.

Torna-se importante, portanto, entendermos que, no atual momento, num contexto de pós-industrialização e hiper-consumo, no qual todos os produtos parecem já terem sido criados e produzidos – e coexiste uma realidade que possivelmente seja insuperável, que é a disparidade entre a pobreza absoluta e a riqueza – outro cenário emerge e coloca um impasse enfrentado pelo design: a questão do descarte pós-uso do produto industrial, ou a atualmente chamada obsolescência programada.

Criar estratégias para o descarte, para a re-materialização e para a reciclagem, constitui-se num desafio significativo para a atuação do design como agente de transformação, promoção de novos estilos de vida, novas formas de perceber o mundo e as coisas à sua volta, principalmente diante da aguda crise ambiental em que vivemos hoje.

Mas, qual seria o caminho certo?

Já no início do século XXI a reciclagem se tornou elemento importante na maioria dos países industrializados. Além do aspecto ambiental, amplamente discutido pela sociedade, o econômico tem feito a reciclagem tomar uma importância estratégica, não só para os materiais poliméricos, mas também para as demais classes de materiais. Porém, podemos perceber que a questão ainda enfrenta uma série de situações que acabam por dificultar o desenvolvimento e ampliação de seus processos. Conforme alguns autores (Hamerton, Zapagic e Emsley), existem três principais obstáculos para que o processo de reutilização seja aplicado com eficiência.

  1. O primeiro diz respeito à coleta do produto, que é dificultada pela falta de uma estratégia de recolhimento eficiente e também na falta de interesse, por parte de grande parte das indústrias, em aplicar essa prática;
  2. O segundo obstáculo diz respeito ao Design do Produto que, em grande parte dos casos, é projetado sem a preocupação pelo processo de desmontagem;
  3. E, como terceiro obstáculo, é levantada a questão da baixa aceitação, pelo usuário final, de produtos reciclados, que pode estar associada a várias questões, entre elas o baixo desempenho do produto gerado em relação ao original.

O que podemos pensar dessas colocações: dois, dos três obstáculos apresentados são situações que podem ter a intervenção inteligente do design, além disso, possivelmente o objeto reciclado carrega consigo informações subjetivas de sua existência anterior, ou seja, mesmo que reciclado, seus sentidos, significados que foram dados a eles por nós, ainda são muito presentes e marcantes. Porém, de forma conturbada, pois aquele novo objeto que se mostra, não condiz mais com as funções e atribuições que lhes eram peculiares anteriormente. Então, sua rejeição e possível aceitação não estariam no campo dos significados?

Os artefatos carregam consigo boa parte da historicidade de nossas vidas e é a partir desse contexto que criamos significados para eles.

Jean Baudrillard nos esclarece a diferença entre produtos materiais e objetos de consumo. Para o autor, os objetos e produtos materiais são apenas objetos da necessidade e satisfação humana. O autor nos relata que, em todos os tempos, comprou-se, possuiu-se, usufruiu-se, gastou-se e, contudo, não se “consumiu”, pois nas festas primitivas a prodigalidade do senhor feudal e o luxo dos burgueses do século XIX não pertencem à esfera do consumo, como a entendemos atualmente. Então, se nos sentimos justificados a usar esse termo na sociedade contemporânea, segundo o autor, não é porque passamos a comer mais e melhor, porque absorvemos mais imagens e mensagens, porque dispomos de mais aparelhos e de gadgets. Para o autor, o consumo, pelo fato de possuir um sentido, é a atividade de manipulação sistemática de signos. Para tornar-se objeto de consumo é preciso que o objeto se torne signo, quer dizer, exterior de alguma forma a uma relação da qual apenas significa. Portanto, ele será arbitrário e não coerente com essa relação concreta, mas adquirindo coerência e, consequentemente, sentido em uma relação abstrata e sistemática com todos os outros objetos-signos. Para o autor, só nesse momento o objeto se “personaliza”, se torna em série e aí será consumido, porém jamais em sua materialidade, mas em sua diferença.ressignificação

Diante do exposto, podemos compreender que é mediante a construção de sentidos que conhecemos e entendemos o mundo a nossa volta. O ser humano, então, está em constante recriação das coisas. Porém, é importante entender que dizer que o ser humano constrói o mundo pautado por suas impressões não significa afirmar que o sentido seja da qualidade do individual, de domínio de um único sujeito, o sentido será sempre social. Ele se sistematiza e se organiza em teias e emaranhados de estruturas de significados, a fim de estabelecer estruturas simbólicas que dêem coerência à ação humana.

Disso, podemos concluir que o ato de “significar” é um atributo de todo ser humano, que pode conferir às coisas, os mais variados significados. Esses significados são, na verdade, o resultado do que percebemos em relação ao que esta ao nosso redor, ou seja, combinação da somatória de variáveis que resultam numa determinada percepção, levando em consideração também o nosso repertório, e é aí que se instala a significação.

Seria então possível que, ao manipular essas variáveis de forma premeditada, o design possa alterar a forma como percebemos os objetos?

Ou seja, o designer poderia gerar, através da mudança nas variáveis da percepção, uma alteração de significação de um determinado produto/objeto que tenha sido descartado ou que tenha sido reciclado, mas que foi repelido pela sociedade?

Será que o descarte de grande parte de produtos que são jogados fora, em bom estado de uso ainda, não seria evitado se tivessem para nós novos significados?

Talvez seja possível que, ao provocarmos uma transformação nas características perceptíveis de um produto, aliando a concepção de design, poderemos ter o resultado de um produto que terá um novo sentido para as pessoas, modificando a forma de como ele é percebido, gerando um possível desejo de posse, que não existia mais com seu sentido antigo.

Referências

BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 2005.

HAMERTON, I.; ZAPAGIC, A.; EMSLEY, A. Polimers: the environment and sustainable development. West Sussex, England: Wiley, 2003.

LIPOVETSKY, G. A sociedade da decepção. São Paulo: Manole, 2007.

SUDJIC, D. A linguagem das coisas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.

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