“Ser designer é entender os desejos humanos”, diz Stefano Giovannoni

Por Centro Brasil Design

Texto e entrevista: Julliana Bauer

Sempre em companhia da esposa, Stefano Giovannoni é um homem paciente e curioso. No Centro de Design Paraná, onde esperou por algumas horas antes de fazer visitas e passeios por Curitiba, observou atentamente a biblioteca repleta de livros sobre design. Quando encontrava algum que lhe interessava, pegava-o cuidadosamente e folheava as páginas, tentando ler algumas palavras em português, e em seguida, o guardava novamente no exato local em que o havia encontrado. Quebrando o estereótipo italiano, fala baixo e com voz arrastada, mede seus gestos e responde sem rodeios a qualquer pergunta.

Conhecido no mundo do design por seu talento em criar produtos que são verdadeiros best sellers, o designer italiano ministrou uma palestra a estudantes e empresários, e foi uma das principais atrações da Semana D – Festival de Design, em Curitiba. No evento, falou com carinho sobre os produtos que o tornaram célebre – a série Girotondo, o banquinho Bombo, a família de utilitários Mami e as louças de banheiro para a Alessi. Com a graciosidade e referências ao mundo infantil de algumas de suas criações, ganhou a plateia de centenas de estudantes que o ouviam atentamente, sem tirar os fones de tradução simultânea – afinal, embora fale inglês, o designer prefere que suas palestras sejam em sua língua materna, o italiano.

Confira a entrevista exclusiva de Stefano Giovannoni para o Design Brasil:

 

Qual a sua visão sobre o design brasileiro? Você pesquisa a respeito ou mesmo sabe algo sobre o design daqui? 

Sabemos muito pouco sobre o design brasileiro. Pessoalmente, sou amigo dos irmãos Campana e na Europa nós sabemos que o trabalho deles é bem interessante, algo entre o design e a arte. E conheço também a Melissa, que é uma empresa bem interessante e tem uma imagem bastante interessante dentro da moda e do design. No entanto, não sabemos o suficiente em relação à situação do design no que diz respeito a outras empresas e outros designers.

Você tem alguma referência brasileira no seu trabalho?  

Não. Atualmente temos muitos clientes na Ásia, apenas um nos Estados Unidos e absolutamente nenhum na América do Sul.

Você gosta muito de música. Ela te influencia o seu trabalho, de alguma forma?

Como designer, eu acho muito importante saber o que está acontecendo na sociedade, e acho que a música é um aspecto muito importante disso. Vendo como a música se desenvolve, é possível entender como outros tipos de arte – e mesmo o design, – desenvolvem-se da mesma forma. Então hoje em dia é importante entender como a música, design e arte possuem um desenvolvimento em comum após um período avant-garde. Atualmente, trabalhamos em um período muito diferente para a cultura, e o que está acontecendo na arte, música e design é muito similar. Portanto, é importante compreender essas mudanças e ser capaz de traçar um paralelo entre tudo isso.

O seu trabalho possui também muitas referências à arte pop…

…Acho importante essa observação, porque é claro que tenho em meu trabalho uma cultura muito conceitual e pop, e a pop art foi um movimento crucial para os anos 70 e 80. E é certo que devemos olhar para artistas como Andy Warhol e Jeff Koons como referências no assunto.

As criações do designer para a Alessi permanecem no mercado muitos anos após lançadas

 

Tem alguma empresa para a qual você gostaria de criar algo?

Melissa! Eu gostaria de trabalhar com a Melissa porque já me envolvi várias vezes com produtos e projetos relacionados à moda. Então já criei relógios, óculos e algumas joias. Mas sapatos são algumas das poucas coisas com as quais eu nunca trabalhei, e eu sou um designer do plástico, então isso seria bem interessante.

 

Faculdades de design estão se tornando cada vez mais procuradas por estudantes brasileiros. Você tem alguma dica para jovens que sonham com uma carreira no design?  

Sim. Ser designer significa entender profundamente a sociedade e entender como os desejos humanos se desenvolverão no futuro. Então um designer é uma pessoa que deve tentar entender as necessidades, os desejos e a forma com a qual a imaginação das pessoas precisa de certos elementos para crescer.

 

O banquinho Bombo, copiado no mundo inteiro, é criação de Giovannoni

 

Você criou produtos que ainda são muito populares, mesmo muitos anos após terem sido criados. Hoje em dia, com a crescente tecnologia, você acha que ainda é possível criar algo que será requisitado daqui a vinte anos, por exemplo?

Essa é uma questão pertinente e muito interessante. Se a tecnologia não for a qualidade mais proeminente de um produto, aí sim, você pode criar um produto que talvez fique no mercado por vinte ou trinta anos, como eu mesmo fiz com muitas criações minhas. Mas se a tecnologia continuar buscando inovação – e aqui falamos sobre telefones, tablets e coisas do tipo-, aí é claro que o produto não se manterá no mercado, porque é um ramo no qual a inovação é o fator mais importante. Então neste caso, o design e a tecnologia estão evoluindo continuamente, de forma que um produto não consegue se manter atual por muito tempo. O que importa é o processo. A Apple é uma empresa incrível, porque possui o mais sofisticado processo de desenvolvimento de pesquisas.

 

Serviço

Com o tema “Criatividade, Inovação e Negócio”, a Semana D, que acontece em Curitiba entre 01 e 07 de outubro, é pensada, formulada e baseada nas grandes semanas de design que acontecem no exterior.  O evento é uma realização do Centro de Design Paraná e da ProDesign>pr e conta com patrocínio do Sebrae, Unicuritiba e  Senai.

Para mais informações, acesse http://www.semanad.com.br/

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