Suporte em design na Noruega: parceria pela eficiência

Por Editor DesignBrasil

Gisele Raulik entrevista Fred Pedersen, do Design Council Norueguês

Fred Pedersen (foto) trabalha para o Design Council Norueguês – NDC há 12 anos: “Meu trabalho é ajudar empresas a entrar em contato com designers e iniciar projetos”. Durante este período, o NDC vem desenvolvendo um programa em cooperação com a organização Inovattion Norway, e isso vem mantendo o principal programa de suporte em design da Noruega.
Em maio deste ano, Fred participou do IWDS2006 International Workshop on Design Support, no País de Gales, apresentando o seu trabalho. Nesta ocasião, ele concedeu esta entrevista, publicada em sua versão original no SEEdesign Bulettin (disponível na página www.seedesign.org).
Nesta conversa, Fred conta sobre a sua experiência na coordenação do programa e sobre a infraestrutura disponível para as iniciativas em design na Noruega.

Fred, durante sua apresentação no IWDS 2006 você falou sobre a cooperação entre o Norwegian Design Council (NDC) e o Innovation Norway (IN). Qual a função e a estrutura de cada uma destas organizações?
O Norwegian Design Council é a principal organização para promoção do design na Noruega. Nossa missão é encorajar e ajudar as indústrias norueguesas a trabalhar com profissionais de design. O objetivo é fomentar a inovação e a competitividade. Isto é muito importante para o Norwegian Design Council: o aumento da competitividade e lucratividade. As empresas devem ganhar dinheiro ao utilizarem design. Comparado ao Innovation Norway, o Design Council é uma organização bem pequena (13 pessoas), localizada em Oslo. Foi fundado em 1963 pela Confederação das Indústrias Norueguesas e do Conselho de Exportação Norueguês. O NDC é mantido principalmente com fundos do Ministério do Comércio e Indústria. O Innovation Norway promove nacionalmente o desenvolvimento industrial e econômico para empresas quanto e para o país em geral. Também ajuda a desenvolver o potencial de diferentes províncias e regiões, contribuindo para o fomento à inovação, internacionalização e promoção. Esta organização governamental emprega mais de 700 pessoas, tem escritórios em todas as províncias Norueguesas e em mais de 30 países. O escritório sede é localizado em Oslo. O grupo principal de clientes é formado por pequenas e médias empresas (PMEs). Nesta parceria o Norwegian Design Council contribui com o conhecimento em gerência de design, com os consultores em design e com uma database de designers noruegueses. O Innovation Norway tem a rede (nacional e internacional) e o suporte financeiro disponível para as empresas norueguesas.

Nós estamos falando da associação de uma organização de design e uma infraestrutura de suporte em negócios. Não é raro ouvir sobre problemas que surgem quando estes dois grupos se unem (designers and businesses). Como isto funcionou na Noruega?
Em 1998, NDC e IN acertaram um acordo de cooperação. Começamos a operar em 1999 com seminários para funcionários nos escritórios regionais do IN (18 escritórios espalhados pelo país). Esta organização apontou uma pessoa de contato responsável por design em cada escritório regional. Estas pessoas não eram acostumadas a trabalhar com este assunto, então tivemos que ensiná-los sobre gestão de design. Eles tiveram que visitar pelo menos duas empresas acompanhados de um consultor do NDC. E após este treinamento passaram a realizar as visitas sempre que uma empresa solicita assistência para problemas ligados a design. Eles também escrevem o briefing, que nos enviam aqui para o NDC. Nós então selecionamos designers e preparamos o projeto. Esta contribuição é muito importante para nós, significando que não temos mais que visitar todas as empresas pessoalmente. Antes desta parceria com o IN, tínhamos que viajar por todo o país para encontrar os empresários (a Noruega tem 4.6 milhões de habitantes, mas é um país comprido, com a população distribuída). Era uma tarefa impossível. As pessoas do NDC e do IN envolvidas no programa encontram-se em Oslo uma vez ao ano. Este encontro coincide com o Dia Anual do Design do NDC. Viagens de estudo também são organizadas para contatos (incluindo visitas a Copenhagen e Barcelona). Trata-se de negócios, mas também é um lazer. É importante conhecer as diferentes pessoas e firmar contato pessoal em um ambiente profissional, mas também descontraído. Este sistema vem funcionando bem e agora temos uma equipe muito boa.Em termos de recursos humanos, qual é o a estrutura disponível atualmente para os programas de suporte em design na Noruega?
Uma pessoa é responsável pelo suporte em design no IN e outra no NDC. Eu sou responsável no NDC. Existe também uma pessoa responsável pelo programa em cada escritório regional do IN nas províncias norueguesas, num total de 18. Para estas pessoas, design é um trabalho de meio período. Nós formamos um comitê em nível nacional com gerentes seniores das duas organizações. O grupo reúne-se duas vezes ao ano para estabelecer a estratégia do programa e avaliar o trabalho. IN também tem quatro ou cinco gerentes de projeto em tempo integral prestando assessoria às empresas locais. Eles são mantidos em parte pelo governo regional e ficam responsáveis pelo suporte em design nas suas regiões. Eles escrevem os briefings e recomendam os designers. Isto é de grande ajuda. Nas outras regiões, como mencionei, o contato do IN visita as empresas, e envia o briefing para o NDC, que então organiza o contato com os designers.

Qual é o apoio financeiro disponível para as empresas? A assessoria prestada pelo NDC e pelo IN é cobrada?
Os serviços oferecidos pelo NDC/IN são gratuitos para as empresas. Além disso, temos um programa de financiamento nacional chamado Icebreaker (quebra-gelo). Empresas podem receber 50% dos custos do projeto até um certo limite. IN também dispõem de algumas outras opções de crédito.

Quantas empresas vocês já conseguiram assessorar com este programa?
Entre os anos de 1999 e 2006, mais de 300 PMEs de todo o país e de vários setores da indústria participaram do programa. Mais de 130 designers assinaram contratos, sendo que mais de 160 designers tiveram a oportunidade de fazer contato com empresas (três designers diferentes são apresentados a cada empresas inicialmente).

O que você aponta como pontos positivos deste programa?
Eu penso que o programa, que continuará em operação nos próximos anos, é um sucesso e há várias razões para isso. Uma das razões principais é que temos 18 escritórios com competência para o design em todo o país. Outra razão é o suporte financeiro, ao menos no início do projeto. Uma database de mais de 300 designers e informação atualizada sobre os designers no país também contribui. E é muito, muito importante que possamos atender as empresas com resposta rápida. Se nos perguntam por assessoria em design, tentamos dar uma resposta imediata. Visitamos a empresa assim que possível, talvez uma semana depois do contato, talvez duas ou três semanas, mas não mais do que isso. É importante visitar a empresa quando ela necessita de assistência, não depois de dois ou três meses, porque talvez não estejam mais tão interessadas. E as empresas percebem como um ponto positivo do programa o fato de que o suporte é adaptado para as suas necessidades.

E o que você aponta como um ponto negativo?
Na minha opinião é negativo que não possamos acompanhar os projetos mais de perto e por um período mais longo devido à falta de recursos e tempo. Um acompanhamento mais próximo seria vantajoso tanto para a empresa quando para os designers. A maioria das empresas está utilizando design pela primeira vez e o encontro com o designer pode ser um encontro com uma cultura estranha, o que não é sempre fácil de gerenciar.

A assessoria em design para empresas na Noruega é uma das atividades do Norwegian Design Council. Este é o foco principal da organização?
Sim, a missão do NDC é encorajar e ajudar a indústria Norueguesa no trabalho com designers, a fim de fomentar a inovação e a competitividade. As atividades compreendem recomendações, consultorias, promoção do design, seminários e conferências, prêmios, concursos e exposições. Em fevereiro 2005, nós abrimos o Centro Norueguês de Design e Arquitetura em Oslo.
A abertura deste centro de design foi certamente um investimento grande em tempo, dinheiro e pessoal. Isto influenciou o funcionamento do serviço de assessoria em design para as empresas?

Não penso que o Centro tenha influenciado na prestação deste serviço. A maioria das empresas que temos contato está fora de Oslo, espalhadas pelo país.

O espaço do centro é dividido com alguma outra organização de design?
Sim, a Foundation of Design, Architecture and Built Environment. O foco desta organização são profissionais, autoridades, escolas, instituições educacionais, negócios e o público geral. A Fundação é financiada pelo Ministério da Cultura diferente do NDC que é financiado pelo Ministério do Comércio e Indústria.

Quais as vantagens desta associação?
As duas organizações operam mais próximas do que antes. Juntos temos conseguido sucesso em colocar design mais alto no contexto do país. O Design Year 2005 é um bom exemplo de um programa bem sucedido que resultou da cooperação entre as duas organizações. E também cooperamos em exposições.

De sua experiência em programas de assessoria a empresas, você destacaria alguma iniciativa que não obteve sucesso?
Nem todos os programas são bem sucedidos. Nós deveríamos ter sido mais críticos antes de termos iniciado alguns dos projetos. Agora vemos que nem todas as empresas estavam maduras para um projeto de design. No futuro, devemos fazer uma melhor avaliação das empresas antes de encorajá-las a engajar no processo de design.

Como os mecanismos de suporte em design poderiam ser melhorados?
Neste projeto entre o NDC e o IN, nós damos prioridade à quantidade, e não à qualidade. Nós queremos dar assistência a empresas imediatamente quando nos solicitam ajuda. Toda empresa que entra em contato conosco recebe ao menos uma visita. Talvez pudéssemos ir mais adiante com algumas destas empresas. O futuro do suporte em design na Noruega parece promissor. O objetivo será dedicar mais tempo com cada empresa, o que irá melhorar a eficácia desta assessoria. Empresas com as quais tivemos contato nos últimos dois ou três anos têm melhor suporte do que as empresas que assessoramos nos primeiros anos do programa. Nós aprendemos muito e a experiência mostra a necessidade de ir mais além em cada assessoria. O cenário ideal seria ter coordenadores de projeto em tempo integral em todas as províncias da Noruega. Eles estão próximos das empresas, as conhecem, sabem a diferenças culturais entre as diferentes regiões. Seria muito mais eficiente. Viajar na Noruega custa muito caro. Se eles são responsáveis por uma região apenas, então não precisam gastar tanto tempo e recursos viajando. Eles são engajados em design e então penso que seriam bom embaixadores do design pelo país.

E é provável que isso aconteça?
Eu espero que sim. No Norwegian Design Council quando eu comecei, eu era a única pessoa envolvida nesta área. Depois de dois anos, mais uma pessoa foi alocada para trabalhar neste programa. Ao final de 2006, esperamos ter mais duas.
Nós agora também temos coordenadores de projeto em várias regiões do país, em tempo integral, financiados pelo IN. Estamos em contato com eles toda semana, e com alguns não apenas uma vez por semana, mas duas ou três vezes. Nós saímos juntos algumas vezes, temos workshops com as empresas, organizamos seminários e outros eventos. Desta maneira nós vemos que eles são nossas mãos dentro da comunidade daquela região.
O aumento de recursos é necessário. As boas novas são que o orçamento geral do NDC recebido do governo norueguês dobrou em 2006, de EUR 1.600.000 para EUR 3.100.000.

Para finalizar, você mencionou em sua apresentação alguns desafios: 1) definir objetivos e planos para o suporte em design e 2) escritórios internacionais do IN deveriam ser integrados ao programa de design suporte. Poderia nos falar mais sobre estas duas idéias?
Nós devemos priorizar estratégias com consumidores do design, desenvolver gestão e iniciar novos programas. Hoje, temos programas bem focados como Design and Food, Design and Forestry and Design and Internacionalisation. Planejamos iniciar novos focos como Design and Tourism e Design and Innovation. Também vamos desenvolver nossa rede melhor e produzir mais e melhores estudos de caso.
E para finalizar, gostaríamos de envolver os escritórios internacionais no programa de design. O objetivo seria ajudar empresas a ganhar acesso a novos mercados fora do país.

* Para mais informação sobre o Norwegian Design Council, visite www.norskdesign.no
** O SEEdesign Bulletin Setembro 2006, com a versão original desta entrevista em inglês, está disponível para download no site www.seedesign.org/activities.
*** Nesta versão em português algumas expressões e títulos foram mantidos na língua inglesa para garantir fidelidade à idéia original.

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