Tradição e novidades na 8ª Bienal Brasileira de Design Gráfico

Por Bruno Porto

Esta oitava Bienal é diferente das anteriores: não será apresentada em categorias expositivas e sim em núcleos reflexivos.

Inaugura dia 20 de junho a 8ª Bienal Brasileira de Design Gráfico, na Galeria Marta Traba do Memorial da América Latina, em São Paulo, organizada pela ADG Brasil Associação dos Designers Gráficos. Os números oficiais desta Bienal já são surpreendentes mesmo antes de seu início: 2306 inscrições dos quatro cantos do país, e 309 projetos selecionados.

Fazendo uma matemática bem básica, ficaram de fora (a obscena quantidade de) dois mil projetos. São todos ruins? De maneira alguma. Não são bons o suficiente para figurarem na Bienal? Tampouco é por aí o raciocínio. O júri composto por 42 profissionais das mais diversas formações e especialidades encarou de frente e na unha a difícil tarefa de escolher, entre projetos de altíssima qualidade, quais os mais representativos da atual produção brasileira em termos de linguagem, segmento de mercado, investimento, complexidade, inovação.

A questão é simples de se entender, embora não de se resolver: não há espaço suficiente. Não só na Galeria Marta Traba como no catálogo da Mostra Seletiva. Ao menos não de uma maneira que ambos reunião e registro sejam exequíveis e possíveis de ser apreciados de forma adequada. Cada página do catálogo da Mostra Seletiva possui no máximo dois projetos, e em muitos casos é pouco, em se tratando da complexidade do trabalho. Levando em consideração que um projeto pode ser composto por às vezes até vinte peças, como uma papelaria, uma linha de embalagens ou mesmo uma coleção de livros, chuto um total de 400 a 450 itens expostos e fotografados. Um cartaz tem só um ângulo, mas e um robusto livro ilustrado? Ter muito mais do que estes 300 e tantos projetos em uma mostra que se pretende itinerante (pensemos no armazenamento disto) e que se espelha em um catálogo que visa ser adquirido a um preço acessível dentro da nossa realidade sócio-econômica (ou estaríamos fazendo uma Bienal para uns poucos, e este nem de longe é o objetivo) é uma encrenca sem tamanho. Ou melhor, de tamanho XXG, como vivenciamos na última edição do evento, em 2004, quando tivemos 369 projetos selecionados.

Esta e outras histórias sobre o processo que levou ao formato inédito desta oitava Bienal que diferente das anteriores, não será apresentada em categorias expositivas e sim em núcleos reflexivos, e que inclui projetos acadêmicos de graduação, entre outras mudanças já foram tema de outro artigo publicado aqui no DesignBrasil em duas partes (Redesenhando uma Bienal de Design – A anatomia de uma operação). De lá para cá, pouca coisa mudou conceitualmente, embora na prática tenha se mostrado uma encrenca maior do que esperávamos.

Em abril, tendo os projetos já sido selecionados pelo júri, a Comissão Curatorial composta por André Stolarski, Fernanda Martins (que atuara como coordenadora do júri), Marco Aurélio Kato e eu se reuniu em São Paulo para separá-los no que acreditávamos ser quatro Núcleos, inicialmente denominados “Design de excelência, Investigação de linguagem, Novos campos de trabalho e Pensando o design”. Não funcionou. Se a separação fosse feita desta forma, a Bienal teria dois Núcleos com cerca de 130 trabalhos (um equilíbrio esperado entre os contextos comercial e experimental), um com 30 (Novos campos de trabalho que neste momento já se ampliara para Novos Rumos) e cerca de 15 projetos em sua maioria livros, com uma grande quantidade dos tais projetos de graduação de caráter reflexivo quanto a atividade. Teríamos uma mostra confusa, desequilibrada, caótica.

A saída, burilada com afinco por André, foi estudar todos os projetos, encontrar características que os definissem como semelhantes, e agrupá-los em conjuntos representativos coerentes. Surgiu, literalmente, uma dúzia de núcleos, que foram batizados com respostas a pergunta O que o design brasileiro está fazendo na 8ª Bienal Brasileira de Design Gráfico?: Renovando o mercado; Ampliando o moderno; Rearticulando objetos; Investigando o Brasil; Reinventando o Clássico; Explorando a Informalidade; Mergulhando no Pop; Aumentando o corpo; Trabalhando com a apropriação; Acumulando signos; Provocando o receptor; e Pensando o Design. Não totalemente satisfeito, André ainda gerou brilhantes textos explicativos que estarão no catálogo e na mostra sobre cada núcleo-questão, que acreditamos cumprirão seu papel de educar e promover o debate, ampliando a visão dos visitantes da mostra, sobre a atual produção brasileira de design.

No entanto, uma das coisas que achei mais bacana nesta Bienal foi uma das mais simples de se executar. A Comissão Organizadora da qual ainda fazem parte, em atuações e responsabilidades diversas, Luciana Sion, Adriana Campos, Orlando Faccioli, Marina Chaccur, Eduardo Braga retomou a tradição iniciada na primeira edição da Bienal, em 1992, de homenagear um designer brasileiro. O nome escolhido sugerido há cerca de um ano e meio atrás foi o do pioneiro designer paulista Ruben Martins, morto aos 39 anos, em 1968. Coincidentemente, pai de Fernanda que muito justificadamente se mostrou ressabiada, entre o honrada e o insegura, com a homenagem. E se pensarem que estou me aproveitando do fato de ser diretora para homenagear meu pai?, indagou, há cerca de quatro meses atrás, quando finalmente soube dos nossos planos. Seria até possível, se não tivesse Ruben Martins sido quem foi, com uma produção de qualidade indiscutível e hoje, como muitas outras, pouco conhecida e difundida e digna das mesmas homenagens prestadas recentemente aos seus contemporâneos Aloísio Magalhães e Alexandre Wollner.

O objetivo desta homenagem é simples (e a decisão de se fazê-la, mais ainda), porém essencial em uma Bienal que como salienta um texto no catálogo dá as boas vindas ao designers gráficos de amanhã: Promover o olhar para o futuro sem perder o pé no passado. Haverá na exposição um painel com imagens de alguns de seus incríveis projetos, que também constarão (embora de forma mais tímida devido as sufocantes restrições de espaço e tempo) do catálogo e da cerimônia de abertura. Outra presença considerável, pela oportunidade de contextualização, é no livro O design gráfico no Brasil: anos 60, que terá pré-lançamento na abertura da exposição. O livro, organizado pelo designer Chico Homem de Melo, inclui um texto de André Stolarski intitulado A identidade visual toma corpo, sobre o aprofundamento das questões ligadas ao planejamento visual a partir das décadas de 1950 e 1960 e que conta com seis páginas dedicadas ao homenageado da 8ª Bienal Brasileira de Design Gráfico. É tempo de Ruben Martins. Aproveitem a oportunidade deste encontro.