Trendsetters e Brasilidade 2

Por Editor DesignBrasil

Enquanto o Brasil acredita ter que descobrir a milagrosa receita do design de sucesso com os países europeus, o que se vê hoje na Europa é uma enorme atenção voltada a tudo aquilo que nos representa como imagem. Em diversos locais ao redor do mundo nota-se uma verdadeira sede de consumo pelos produtos que nos caracterizam como nação. A cara brasileira como sinônimo de calor, cor e matéria já está sedimentada no imaginário coletivo e o design brasileiro está em alta nos quatro cantos do mundo.

Mas buscar a essência do que se convencionou chamar caráter nacional – aqueles traços que explicam uma série de comportamentos que costumamos encarar com naturalidade mas que, quase sempre, causam surpresa entre os estrangeiros – não tem sido tarefa fácil para os designers tupiniquins. Como disse Tom Jobim “o Brasil não é para principiantes”…

Uma das primeiras impressões do turista estrangeiro quando chega por aqui é como nos relacionamos: com mais afetividade, através de conversas no meio na rua, de sorrisos e gentilezas. Enquanto na Europa o silêncio predomina nas estações do metrô e nos ônibus, o burburinho é marca nas cidades brasileiras. Nossa informalidade (aqui o próprio presidente é tratado pelo apelido), nossa naturalidade diante da miséria e nossa capacidade de conviver e até praticar mais de uma religião foi estudada exaustivamente por Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior, entre outros que tentaram responder afinal, “qual é a cara do brasileiro”?

O chamado “homem cordial” por Sergio Buarque de Holanda no livro Raízes do Brasil, que tende a rejeitar a impessoalidade dos sistemas administrativos, é tão sedutor quanto o Zé Carioca – o bom malandro que tão bem representa o nosso lado bem-humorado, autocrítico e tolerante. (Essa cordialidade, aliás, serve de platafroma para as impagáveis piadas do cronista-humorista José Simão). Vejam o que disse o jornalista Tyler Brule, do Herald Tribune, sobre o nosso país:

(Redescobrindo as vantagens secretas do Brasil, 29-01-2008)
“No salão de entrada do Hotel Fasano eu tinha me esquecido de que ainda é possível encontrar garçons e atendentes de bar de 60 anos de idade, talvez 70, conversando e gesticulando com fregueses paulistanos, falando em português, espanhol, inglês e italiano. É esse relacionamento pessoal amigável e altamente pessoal que também revela duas armas secretas do arsenal brasileiro de vantagens econômicas de impacto – cordialidade e multilingüismo. É um fato reconhecido internacionalmente que existe uma certa profundidade de alma e um ritmo gentil de bossa nova permeando a maioria da população brasileira.”

Então, por que é tão difícil imprimir nossa essência no mobiliário? Provavelmente porque não somos feitos de uma única essência, mas da várias. Como num perfume que reúne notas variadas, o design brasileiro conta com um vasto arsenal de elementos culturais prontos para serem combinados. Um desses elementos é a regionalidade, fator significativo de nosso DNA. De acordo com o Prof. Paulo Oliva, da FAU-USP, “O termo regionalidade pode ser utilizado para qualificar ações que visam destacar, desenvolver e difundir as habilidades e características de uma região, procurando torná-la um centro de referência.”

A tão aclamada “brasilidade” passa necessariamente pela compreensão do contexto cultural onde um produto foi ou será criado. Em cada região deste imenso país existe uma cultura “do fazer” – industrial ou artesanal, técnica ou intuitiva – que está extremamente ligada a expressões artísticas e valores locais, regionais.

Na década de 60 o design brasileiro, influenciado pelo modernismo na arquitetura, utilizou-se muito das matérias primas naturais a fim de criar uma identidade. Mas embora reconhecido até hoje, o design brasileiro deste período não representa nossa Nação, apenas uma parte dela. Atualmente o Brasil segue na busca por sua identidade mundial, tentando unir a base do design europeu com pitadas de uma “tropicalidade” intimamente ligada ao fator regional.

Embora consciente do inquestionável valor do design, grande parte da indústria brasileira ainda dispensa investimentos no design Made in Brasil ou erra grosseiramente ao relacionar nossa imagem ao exótico, o místico ou o selvagem. Um case muito interessante ocorreu no Salão do Móvel de Milão 2004, quando uma empresa gaúcha misturou tristemente na mesma estante estruturas de alumínio, prateleiras de imbuia nacional, portas com estampas de onça pintada e gavetas com pastilhado de coco. Para divulgar o “produto brasileiro” foi criado um catálogo trilingue recheado de imagens incompatíveis entre si: o gaúcho do chimarrão, araras, a população indígena da Amazônia, o Pantanal, o Canaval do Rio, etc, etc. O resultado, evidentemente, foi o fracasso comercial de um produto que nem chegou a ser produzido.

Considerar a regionalidade como um elemento da vasta brasilidade é fundamental para fugir do estereótipo, do exotismo e da extravagância que também cercam nossa imagem no exterior. O design made in Brazil tem muitas caras, cada uma representando a cultura e os valores da região onde nasceu.