Um designer que escreve

Por Bruno Porto

O trunfo alcançado pelas beiradas por Gustavo Piqueira é falar de design gráfico, e da sua necessidade, sem o fazê-lo. Pode ser lido com tanto prazer por você ou por sua namorada/mãe etc.

Tenho um amigo canastrão (por auto-definição) que agora escreve livros, e bons livros. Para estar sendo citado aqui, obviamente é designer, e bom designer, embora nem todos seus livros sejam sobre design. O penúltimo não era, o anterior também não, e embora ambos sejam narrativas bastante pessoais, nenhum poderia ser considerado “sobre design”. Gustavo Piqueira é sócio com seu ex-colega de faculdade Marco Aurélio Kato do bem sucedido escritório paulistano Rex Design, e foi se tornando meu amigo quando fazíamos parte da Diretoria Nacional (do lado de lá da mesa, a dele) e da Coordenação Regional do Rio de Janeiro (do lado de cá da mesa) da ADG Brasil, entre 2002-2004.

Há dez anos a Rex <www.rexnet.com.br> vem desenvolvendo alguns dos mais conhecidos projetos gráficos vistos nas prateleiras de supermercados e estantes de livrarias além de diversos sistemas de identidade e de sinalização e material promocional e institucional em múltiplos suportes, para empresas de todos os tamanhos que vêm sendo reconhecidos em prêmios e menções no Brasil e no exterior. Mas Gustavo, que também versa pelo ensino e experimentação tipográfica e na ilustração, tem escrito muito nos últimos anos.

Dono de um texto sincero e ácido, recentemente Gustavo passou a ser lido exercendo seu mau humor em artigos eventuais na Folha de São Paulo, em que comenta (leia-se “achincalha”) os mais recentes deslumbramentos da paulistagem muderna o que aliás é o mote do divertido “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” (WMF/Martins Fontes, 2007), um dos tais “não sobre design”. Em sua quase totalidade de colaborações para o jornal, podemos praticamente visualizar Piqueira, diante de um despropósito atual qualquer, subir a mão a testa e gemer silenciosamente “Ai… meu… Deus…” antes de explodir em sarcasmo.

Como desde sua estréia literária em 2004 Piqueira tem o salutar hábito de me enviar seus livros quando não os consigo comprar (como é o caso agora, morando na China), pude ler seu mais recente lançamento “São Paulo, Cidade Limpa”, em que registra os resultados práticos da lei com que a Câmara Municipal de São Paulo regulamentou no início deste ano a publicidade e sinalização exteriores na cidade. Lançado conjuntamente com “Odeio Livros” de Marco Aurélio Kato (um exercício de delicadeza visual), é a primeira incursão do selo REX LIVROS e possivelmente é o melhor livro de Gustavo Piqueira.

Para barrar o excelente, polêmico, etc, bravo e brabo “Morte aos Papagaios” (Ateliê Editorial, 2004), uma coletânea barra pesada de reflexões sobre o mercado de design no Brasil, ele possui duas características.

Primeiro, “Cidade Limpa” permite que Piqueira exerça com mais propriedade e expressão sua função de designer. Não que seu outros livros não tenham sido bem desenhados, muito pelo contrário, mas todos o foram em função de um texto. Neste, além do projeto ter partido das imagens pessoais (ou melhor ainda, de uma reflexão sobre as imagens), o livro “torna-se” o texto, é o objeto a ser percebido, e nisso está em perfeita sincronia com o metalingúistico “Odeio Livros”. Não há na leitura como dissociar texto e imagens, ainda mais que estas últimas representam o momento real/verdadeiro da narrativa, já que o texto é ficcional.

E é nas consequências desta mistura ficção-realidade da narrativa que o livro se destaca: “São Paulo, Cidade Limpa” se torna um livro sobre design para não-designers, e isto é precioso. Leve e bem humorado, sem perder seu cerne crítico e cutucante, discute em termos práticos questões ligadas ao design, economia, sociedade e costumes. Se vale de frases escutadas, ou mesmo emitidas, por qualquer profissional da área em um dia típico de reunião com clientes ou fornecedores para batucar na tecla da importância não só de uma formação adequada para a correta execução de um projeto (qualquer) de comunicação visual, como da necessidade de reflexão quando de uma decisão de design.

O trunfo alcançado pelas beiradas por Gustavo Piqueira é falar de design gráfico, e da sua necessidade, sem o fazê-lo. Pode ser lido com tanto prazer por você ou por sua namorada/mãe/etc advogada/bióloga/etc. Difícil é não escutar depois comentários como “pois é, nunca tinha reparado nisso… quem diria que uma simples placa… será que as pessoas não pensam nessas coisas quando…”. A recém criada REX LIVROS começa com seu lema “Discussão (um tanto fora do padrão, é verdade) sobre assuntos relativos à cultura visual de nosso tempo” sendo seguido à risca e com louvor.