Um flagrante do Brasil profundo

Por Editor DesignBrasil

Por Ronald Kapaz

 

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“Quando acreditamos apaixonadamente em algo que ainda não existe, nós o criamos. O inexistente é o que não desejamos o suficiente.”

                                              – Franz Kafka

 

Na semana passada fui assistir a uma mesa redonda que encerrava os dois dias de comemorações do Centenário de nascimento de quatro grandes nomes da cultura literária latinoamericana: Júlio Cortázar, Octavio Paz, Nicanor Parra e Adolfo Byoi Casares.

Na mesa, meu querido amigo, professor e compadre Davi Arrigucci Jr., ao comentar sobre sua relação com Júlio Cortázar, que descobriu quando tinha 17 anos de idade, chama nossa atenção para o fato de que nós, Brasileiros, sempre estivemos atentos à produção literária de nossos “hermanos” latinoamericanos, mas que a recíproca não era verdadeira. Muitos dos grandes autores de língua espanhola nunca tiveram acesso ou curiosidade pela nossa robusta produção (“Borges, por exemplo,  nunca leu Machado de Assis, a quem teria adorado…”).

Os outros componentes da mesa, argentinos, chilenos e mexicanos, silenciosamente (e quase envergonhadamente) reconheceram essa enorme “falha” histórica.

Ouvindo aquele comentário, que para mim não era novo porque já ouvira Davi lamentar, sem mágoa, essa falha antes, olhei para o contexto e comecei a fazer conexões explicativas que me levaram a um triste flagrante do Brasil profundo.

Estávamos na Avenida Paulista, no auditório do Instituto Cervantes – um instituto criado pela Espanha, em 1991, para promover a língua e a cultura espanhola no mundo – celebrando o Centenário de quatro autores de língua hispânica, para uma platéia de brasileiros e latinoamericanos residentes no Brasil, organizado por professores de Literatura Espanhola da USP interessados em celebrar seus autores e referências culturais.

Percebi então que a “falha” não era só e principalmente deles, mas nossa. Não existe um “Instituto Machado de Assis” destinado a promover nossa língua e produção cultural. Não se comemoram, a não ser localmente, os centenários de nossos autores e pensadores (e ainda assim, comemoram-se muito timidamente, às vezes…). E não se promovem, como uma iniciativa governamental, traduções para o espanhol de nossa rica produção literária e de nossa cultura em geral.

O flagrante deste Brasil profundo, um triste retrato, revela nossa pouca atenção a nossa cultura e valores. Revela ainda a falta de visão estratégica que há muito fez nascer institutos ou órgãos oficiais de promoção cultural como o Instituto Cervantes, o Instituto Goëthe e o British Council, para citar alguns.

Vivemos, no setor do Design, sendo visitados por comitivas planejadas de outros países que vêm promover sua cultura e produtos entre nós, e assistimos a tudo com um misto de deslumbramento e inveja. Fico com a sensação de que falta tanto para caminhar e que, ainda que nos mobilizemos e nos organizemos herculeamente ou quixotescamente por mais de 35 anos em torno da conscientização do valor do design como cultura, construindo pontes, não basta.

Sem uma mobilização governamental e uma liderança e visão estratégica que nos coloque e coloque a rica cultura brasileira na pauta com a devida atenção, ainda seremos um país cheio de potencial mas à margem da modernidade.

É assim no design. É assim na literatura. É assim na cultura.

Que venham os “Institutos Brasil”!

 

Sobre o autor:  Ronald Kapaz é VP de Estratégia da Oz Estratégia+Design

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1 Comentário

  1. Ruan Costa disse:

    Texto maravilhoso, palavras sábias. ainda temos muito a fazer pelo país que tanto amamos.