Um país à margem da história

Por Ronald Kapaz

“…os fatores mais importantes são outros – a paradeira da economia nacional e a incapacidade competitiva da maior parte da indústria brasileira.”

“A indústria acuada”, jornal O Estado de São Paulo, http://m.opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,a-industria-acuada,1689176

Um país à margem da história

Abro o jornal e encontro este editorial que aponta para uma questão determinante do futuro deste nosso Brasil: a crise da indústria brasileira e a perda da competitividade.

Curioso encontrar este artigo logo após voltar de Florianópolis, onde estive para a abertura da 5ª Bienal Brasileira de Design, e onde o retrato desta questão estava alí apresentado para quem souber ler o que se passa nesse nosso país, nestes tristes trópicos.

Explico: a realização desta edição da Bienal Brasileira de Design é uma ação estratégica que vem sendo materializada com muito custo e dedicação graças à mobilização da comunidade ligada ao design (a primeira delas, num formato distinto do atual, tendo ocorrido em 1968 por iniciativa da ESDI e da FAUUSP). Este evento, no seu formato atual, é hoje uma das iniciativas planejadas e costuradas ao longo dos últimos 10 anos, onde procuramos construir uma parceria importante com o poder público (MDIC e APEX) para a conscientização e valorização do Design como disciplina fundamental para a eficiência e competitividade da indústria nacional.

Num mundo globalizado, em que as etiquetas “made in” vêm sendo substituídas pelas etiquetas “designed in” ou “styled in”, é fundamental que um projeto de nação contemple o tema da marca país, processo pelo qual uma cultura identifica, fomenta e se apropria de seus talentos, vocação e cultura, transformando e imantando cada produto seu com um DNA reconhecível, único e relevante. E tudo isso é o território do Design.

Esta aproximação público-privada veio colhendo frutos significantes e enfrenta agora o dilema da crise financeira e substituição do corpo técnico dos gestores públicos (mudanças na APEX, a agência de promoção do país no exterior, por exemplo), e o consequente questionamento de tudo o que se construiu, agravado pela crise econômica que nos assola.

Tive a oportunidade de me reunir, ano passado, com o comitê de gestão de marca país do Peru, e descobri então que eles tiveram o cuidado de instituir este comitê de forma suprapartidária e independente, para que os projetos estratégicos de longo prazo, como a construção de uma marca de nação, não fossem prejudicados por interesses políticos dinâmicos e mutantes.

Voltando a Florianópolis, o que vimos lá, mais uma vez, foi a abertura solene de um evento em que, compondo a mesa oficial, estavam alí representados quase todos os setores públicos a quem o tema da competitividade interessa (ou deveria interessar) – mais ou menos 15 representantes de ministérios, entidades e agências – e onde cada um deles teve a oportunidade de manifestar “enfaticamente” sua preocupação e consciência do valor do design. Como em todos os demais eventos, terminada a solenidade, foram todos embora e ficaram alí apenas os designers engajados, jovens profissionais e estudantes para assistir e aprender com o que se reuniu de palestrantes nacionais e internacionais, nos dois dias de debates e encontros ricos de conteúdo e troca.

Sem um compromisso efetivo com as indústrias criativas, continuaremos abrindo nossos jornais todas as manhã e encontrando reflexões críticas e tentativas de explicação para este fato que, pouco a pouco, mas inexoravelmente, vai fazendo do Brasil um país à margem da história: quem não se preparar para o futuro não fará parte dele*.

“Fora dos principais fluxos de comércio, dos acordos bilaterais e inter-regionais e das cadeias globais de valor, o Brasil só pode jogar, e com sucesso cada vez menor, nas divisões inferiores. Os dados da CNI mostram parte dos efeitos de uma sucessão de erros. Para vencer os erros é preciso entendê-los e reconhecê-los. Nenhum desses passos foi dado pela presidente Dilma Rousseff.”

*saiba mais: (http://www.designbrasil.org.br/entre-aspas/quem-nao-se-preparar-para-o-futuro-nao-estara-nele/#.VVyVIKYQiTp)

 

Ronald Kapaz®2015

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**Ronald Kapaz nasceu em São Paulo, Brasil, em 1956. Começou a desenhar, como todas as crianças, aos 4 anos e, ao contrário da maioria delas, nunca mais parou…Do desenho-pulsão, do início de sua carreira (1958) – pura cor, movimento e energia – foi evoluindo e percorrendo as diversas nuances do desenhar: a busca da forma, o controle da mão, a beleza da harmonia, a emoção da cor, a intensidade da luz, a educação do olhar etc…

 

Cursou arquitetura, achando que sua vocação era desenhar casas, e os diversos encontros com a vida modelaram sua trajetória até transformar-se em Designer Gráfico. Percebeu, então, a real complexidade e magia do “desenhar”. Hoje, como designer titular e VP de Estratégia da Oz Estratégia+Design, que fundou em 1979, segue refinando o uso de linhas, formas e cores. E como estrategista senior em identidade corporativa, usa as palavras e um olhar expandido para desenhar pontos de vista, linhas de raciocínio, planos de ação, conceitos de identidade e visões de mundo.