Uma abordagem prática sobre tendências e design

Por Editor DesignBrasil

O exercício do design no Brasil está caminhando a passos largos. Nunca houve tantos eventos dedicados, fóruns sobre tendências e comportamento do consumidor. Ao término do Fórum ForFuture (realizado pela revista Móbile) essas tendências também foram discutidas, mas a real tendência é que tudo permaneça como está. Para se criar produtos sintonizados com o jeito de morar dos brasileiros não basta ter informação, é preciso atitude. Quantos produtos novos e inovadores sairão das fábricas depois do fórum? Será que os debates e apresentações foram capazes de inspirar os ouvintes?

Recentemente um grupo de empresas de Ubá foi atendido por um programa do Sebrae, cujo objetivo era desenvolver mobiliário para a nova classe consumidora. O briefing (apoiado em pesquisas sérias e caras) indicou a necessidade de desenvolver móveis desmontáveis, modulados, multifuncionais, coloridos e com um visual inovador. Ficou tudo na teoria. As empresas não quiseram investir em novidade, não quiseram sair na frente ou fazer diferente. O grupo desperdiçou tempo e dinheiro para concluir que prefere continuar fazendo o que estão acostumados. Ninguém se dispôs a estudar as informações disponibilizadas, ninguém se dispôs a ousar e abrir caminhos.

Infelizmente nossa indústria moveleira está viciada nas mesmas fórmulas de sempre, inventando produtos sem pesquisa, sem conceito, baseados na preferência do dono da fábrica. Isto é o que ocorre na grande maioria das indústrias espalhadas pelo Brasil. E na ânsia de buscar o alternativo ao que se vê nas lojas, na obrigação de sair da mesmice a todo custo, muitas indústrias apostam em montagens exóticas, fundindo modelos e criando verdadeiros franksteins.

A cada ano seguem mais e mais moveleiros para a feira de Milão, que retornam com centenas de catálogos e “idéias”. Dois dos principais problemas são: usamos os mesmos materiais e tecnologias das indústrias italianas? A clientela atendida é a mesma da Europa? A resposta é não. Isto significa que, apesar do esforço em atravessar o Atlântico, o móvel feito aqui não terá o mesmo acabamento, o mesmo resultado e nem o mesmo impacto para o público-alvo. Milhares de empresas acabam descobrindo isso a duras penas, desperdiçando recursos e energia por falta de planejamento. Quantas empresas lançam produtos trazidos de Milão para depois descobrir que aqui não vende? É ai que entra a tal cultura de desenvolvimento.

A indústria moveleira nacional (formada majoritariamente por pequenas empresas) ainda acredita que pesquisa e desenvolvimento é luxo para quem fabrica produtos populares, baratos. E é justamente o contrário: com uma margem de lucro menor a empresa deve ser mais assertiva. Definir diretrizes de desenvolvimento com apoio do design é a estratégia dos fornecedores da Ikea, por exemplo, conhecida mundialmente pela oferta de produtos populares. E vale dizer que esta lição foi aprendida há muito tempo pela indústria de moda, especialmente no nicho fast fashion.

Se o assunto é copiar, vamos admitir: os chineses fazem muito melhor e isto já reflete bastante no mercado de decoração e artigos para casa. Para romper o ciclo vicioso das cópias e “encomendas” dos representantes que ditam o que querem vender só há uma saída: criar uma nova cultura de desenvolvimento de produtos, apoiada em diretrizes sólidas. Que diretrizes são essas? Pesquisas de mercado, de tendências, de materiais, criação de um conceito para a empresa e seus produtos. Mas para que isto aconteça é preciso profissionalizar a indústria moveleira, capacitando gerentes para o longo processo que envolve novos lançamentos. Não se trata apenas de contratar um designer, mas de brifar, investir, comunicar e cobrar resultados.

Aos poucos vem chegando ao Brasil marcas reconhecidas internacionalmente como a Misura Emme (planejados), que mantém parceria industrial com uma fábrica de SP. E muitas outras estrangeiras já estão operando por aqui, levando uma importante fatia do mercado. Então está na hora da indústria moveleira sair da teoria dos fóruns e debates e transformar “as tendências do morar” em produtos competitivos. Assim gira a roda da economia.

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