Uma mascote para o Pan 2007

Por Bruno Porto

Talvez o principal motivo, ou o mais correto, para a utilização de uma mascote é realmente resguardar a marca.

Foi lançado no último dia 13 de julho no Forte Copacabana, no Rio de Janeiro, a mascote dos Jogos Panamericanos de 2007, um simpático solzinho de autoria da Dupla Design, os mesmos responsáveis pela marca do Pan2007. A ampla cobertura da imprensa escrita, televisionada e internetada, como esperado, troca pés pelas mãos ao misturar os significados (e consequentemente, objetivos) de símbolo, marca, logotipo e mascote. Obviamente sem grande culpa, já que não raro os próprios profissionais da área aplicam estes termos sem muito cuidado ou conhecimento, e isso confunde quem replica.

Na sua representação mais comum, a mascote é um animal de particular estimação de um grupo de pessoas, a que se atribui o dom de dar sorte ou trazer felicidade (tanto que em francês provençal, o termo mascoto significa sortilégio, e aquele que o pratica). Embora a adoção de uma mascote geralmente se dê quando se deseja reconhecimento como detentor das características de determinado animal como é o caso de instituições de ensino, equipes esportivas, grupos militares e outros que adotam animais como mascotes para que suas qualidades sejam associadas a seus membros , dentro do composto promocional as mascotes são utilizadas como uma poderosa ferramenta de diferenciação de produtos, empresas, serviços e eventos.

Os critérios que levam à adoção de uma mascote são os mais variados, desde associações a fauna local, lendas mitológicas e acontecimentos históricos, até caracterizações baseadas no simples aspecto visual de um produto ou nome um exemplo de origem tipográfica é o das Casas Sendas, cujo Marreco surgiu inserido em “S” de Sendas e gradualmente evoluiu para um ser independente.

Talvez o principal motivo, ou o mais correto, para a utilização de uma mascote é realmente resguardar a marca. Em alguns casos o logotipo ou o conjunto de elementos da identidade visual da empresa não possui atributos que estimulem seu público-alvo a se associar diretamente a ela: de critérios estéticos adotados (uma marca feia) e o receio de ser confundido com um funcionário uniformizado, até a incômoda sensação de estar sendo veículo de propaganda gratuita. Um evento, como é o caso aqui, possui diversas manifestações que o logo não absorve, e que a mascote por ser versátil, quando o logo é estático pode fantasiar. A mascote se presta, assim, a momentos de menor formalismo, onde nem sempre cabe o uso institucional do logotipo. Isso certamente inclui (embora não se restrinja a) uma vasta gama de comunicados e ações promocionais, como festas e outros eventos, e o uso de produtos e materiais de apoio. O que uma criança prefere ganhar: um chaveiro com o logo do Pan2007 ou um bonequinho de pelúcia?

Assim como com sua polêmica marca (que sofreu até uma leviana para não dizer ridícula acusação de plágio de um quadro de Matisse!), rapidamente surgiram críticas a mascote do Pan 2007, as mais imediatas chamando-a de um pastiche da ilustração do Ninho Soleil ou do logo da loja de brinquedos RiHappy, com as quais compartilha apenas o fato de serem representações estilizadas do sol. Bobagem, nenhum destes inventou a roda. O conceito do mascote que se chamará Luca, Cauê ou Kuará é ótimo, personificando a chama dos ideais olímpicos no fogo do astro rei, poderoso e único, universal e de presença marcante no Rio, no Brasil e na cultura das Américas (vide a bandeira da Argentina, por exemplo, e diversos exemplos das culturas Asteca, Inca e Maia), sinônimo de luz, energia, calor. Além disso, a escolha do mais democrático elemento da natureza afinal “o sol nasce para todos”, como já sugere um slogan não poderia ser mais, hmm, democrática, pois evita beneficiar um exemplar da fauna nacional em detrimento de todos os outros. E note-se que esta é a primeira vez que os Jogos Panamericanos, que passaram a ter mascotes a partir da sua oitava edição em 1979, adotam uma que não é um animal.

Há que se aplaudir também outras coisas: deixou-se a responsabilidade da mascote para a equipe de designers responsáveis pela identidade do evento, e não para uma agência de publicidade ou para um indefectível nome forte do cartum nacional, como Ziraldo, Maurício de Souza, Miguel Paiva, Lan, Angeli etc. Também não se criou um concurso aberto para a criação do mascote, e/ou submeteu-se esta decisão ao voto popular que nem sempre levam em consideração o que é melhor para o evento de uma maneira mais completa. Há a simbólica votação para o nome da mascote (com propostas pré-definidas e bem explicadas em http://pan2007.globo.com/PAN/Mascote/0,,6240,00.html), num processo claro de participação da sociedade, sem que este no entanto comprometa a eficiência do projeto gráfico e a promoção do evento em si.

Um concurso aberto, por mais democrático que aparentemente seja, significa em situações como esta um gasto desnecessário do meu, do seu, do nosso dinheiro, pois não dá garantias de sucesso e, entre outras, abre espaço para encrencas de ordem ética, já que não se pode verificar com segurança a origem dos projetos. Um exemplo disto é o recente caso da marca do Carnaval de Salvador de 2004, plagiada sem dó da marca de uma ONG norteamericana datada de quatro anos antes, como pode ser visto em http://www.weblogical.com.br/plagio.html – <http://www.weblogical.com.br/plagio.html> .

(Não que um trabalho legitimamente comissionado não possa passar por este aperto, como foi o caso do cartaz do 23º Festival Alegre de Música do Espírito Santo de 2006, copiado dos desenhos criados pelo designer londrino Rian Hughes para o poster do London’s Latin Music Festival em 2001).

Mas o que me deixou particularmente satisfeito é que apesar das inevitáveis confusões dos meios de comunicação, não li a palavra “logomarca” uma só vez. Gosto de pensar que eles estão aprendendo.