Uma tabela de preços de design gráfico

Por Bruno Porto

Jogo de cintura, afinal, sempre foi requisito básico para designers, apesar de não ser tabelável e nem haver software que ensine.

No Orkut há uma comunidade ADG Brasil criada pelo Rafael Peixoto Ferreira, designer brasileiro radicado no Canadá onde atuo como moderador juntamente com Guto Lins, Zé Antonio, Billy Bacon e o próprio Rafael. Como informa a descrição da comunidade, Rafael criou aquele “espaço para divulgar e debater as ações e projetos da ADG Brasil – Associação dos Designers Gráficos”. Apesar de alguns dos moderadores atuarem ou já terem atuado como coordenadores da ADG Brasil, a comunidade não é um veículo oficial da Associação nem exclusiva dos seus associados: criada em abril de 2004, contava menos de dois anos depois (março de 2006) com cerca de 7.000 participantes.

Ocasional e infelizmente as questões levantadas no fórum de discussões nada tem a ver com atividades da Associação. São dúvidas extra-ADG como “Preciso de pasta para o meu portfolio” e “Onde posso fazer faculdade? Me ajudem!!!” ou autopromoções como “Veja meu site” e “Downloadeie minha revista”. Como toda lista de discussão ou comunidade internética, esta também sofre do que alguns apontam como um incômodo efeito colateral da e-democracia: a inconsequência. A inexistência de um mínimo de bom senso e civilidade por parte de muitos, agravada pela suposta distância e anonimidade que a internet assegura comprovam que nem mesmo quando o assunto está relacionado a Associação a falta de noção deixa de imperar.

Seguramente o tópico mais recorrente da comunidade é a busca, quase sempre em tom desesperado, pela “Tabela de Preços da ADG Brasil”. O sujeito nem se dá ao trabalho de procurar, nos tópicos anteriores, se o assunto já foi mencionado antes umas quinze vezes. Apenas adentra a comunidade, não lê nenhuma das orientações existentes, e abre um tópico novo pedindo, nem sempre em razoável português, “se alguém tem a tabela de preços para mandar”. Dez em cada dez vezes é orientado educadamente pela sempre a postos publicitária e designer Iris Freitas Duarte a dirigir-se ao seu blog <http://www.ifd.com.br/blog/2004/07/29/quanto_cobrar >, onde generosamente mantém links não só para tabelas de diversas entidades (além da Associação dos Designers Gráficos, há ainda a Associação Brasileira de Marketing Direto, a Associação dos Designers Gráficos do Distrito Federal e o Sindicato das Agências de Publicidade do Espírito Santo) como também para softwares e literatura sobre o assunto, além de outras dicas.

Esta “Tabela Referencial de Preço da ADG Brasil”, que pode ser encontrada no capítulo O Preço do Design do livro “O valor do design – Guia ADG Brasil de prática profissional do designer gráfico” (ADG Brasil / Editora SENAC, 2ª Edição 2004, com textos de Chico Homem de Melo, Lara Vollmer, Ana Luiza Escorel, Cecília Consolo, Edna Lucia e Guilherme Cunha Lima, Priscila Farias, entre muitos outros), é polêmica. Quando é mencionada em conversas, quase sempre escuto em seguida “aaahhh, mas é impossível seguir aqueles valores”, “esses preços são irreais”, “não refletem a realidade do mercado”. Entretanto, nada poderia estar mais longe da verdade, já que eles representam sim a realidade dos preços praticados por associados no mercado brasileiro. Bom, pelo menos em UM deles.

No afã de se encontrar uma solução rápida para um problema, muitas vezes não contemplamos a suposta resposta da maneira necessária. O que deve ser feito, neste caso, é contextualizar. E isto o texto que acompanha a tabela procura fazer.

A primeira edição do livro, de 2003, explica que “esta tabela foi elaborada a partir de pesquisa feita em São Paulo, no primeiro trimestre de 2002 (…)”. Começa aí. São Paulo apresenta não só o índice de preços mais elevado do país (por conta de seu acentuado desenvolvimento econômico) como provavelmente a mais ampla variedade de segmentos de design gráfico. Nem toda realidade sócio-econômica brasileira pode ser comparada a esta realidade ou melhor, realidades, já que uma empresa com 30 funcionários atua em esferas (de salários, clientes, mercados, responsabilidades etc) diferentes do freelancer recém-formado que vive com os pais. Vivemos em diferentes Brasis, mesmo dentro da mesma cidade. Tampouco é segredo que nem todos os profissionais brasileiros de design jogam pelas mesmas regras, supostamente por conta destes diferentes Brasis. Ou seja, nem todos possuem empresas legalizadas, compram softwares, assinam a carteira de seus funcionários etc. Estudantes freelando ou profissionais recém-formados então nem se fala.

Para se chegar aos valores lá apresentados foram levantados junto a vinte escritórios paulistas (e dez fluminenses, de diversos portes) que pagam aluguel, impostos etc os valores cobrados por tais e tais serviços. Foi feita uma média dos resultados (daí os valores estarem “entre” X mil reais e Y mil reais, por exemplo) e publicados. Publicar = Tornar público. A tabela, então, deve ser lida assim: “Em São Paulo, em 2002, para se prestar um serviço de design de embalagem dentro da lei, pagando as taxas e tributos exigidos, não se infringindo nenhum direito autoral de terceiros etc, costumava-se ser praticado um preço entre R$2.500 e R$5.000 (…)”.

Há também que se ler o que está escrito: “Tabela de REFERÊNCIA de preços”. Não é “obrigatória”, não é uma imposição, não é uma ordem a ser seguida, é apenas REFERENCIAL. Serve para saber COMO estão cobrando por aí, de verdade, na vida real, faça você o que quiser com esta informação. Quer cobrar a metade, cobra; quer cobrar dez vezes mais, à vontade. Não é intenção da Associação recomendar os preços lá apresentados embora se fosse para ter um balizador de preços, eu pessoalmente prefiro ter estes índices altos aos valores baixos praticados em Pirarucuraçú da Serra (“Marca, R$30. Cartaz, R$25 sem desenho. Com desenho, R$40″).

Para a segunda edição do livro, de 2004, escrevi um texto, reproduzido por Iris no Dúvidas Frequentes de seu blog, que explica mais sobre a tabela, já rebatizada como “Tabela Referencial de Preços” talvez na próxima possamos chamá-la de “Índice Referencial de Preços” para corrigir a falsa percepção que a ADG Brasil quer tabelar algo.

Entretanto, se na sua área de atuação ou Brasil estes preços forem irreais, basta praticar a máxima punk do “faça você mesmo”: consulte o texto que antecede a tabela o que nem sempre acontece já que ir direto ao mastigado é sempre mais fácil com os CRITÉRIOS que foram usados para que os escritórios chegassem as estes preços, e, individualmente ou em grupo chamando seus próprios vinte, dez ou cinco escritórios , bole suas próprias tabelas. Saber elaborar o custo dos seus projetos certamente lhe garantirá a independência de qualquer tabela e trará mais autonomia ao seu processo de trabalho.

O livro traz ainda outros capítulos que podem ser lidos da mesma forma: como base para pensar (como qualquer bom livro deveria fazer). O Processo do Projeto, escrito por Chico Homem de Mello que por si só vale o preço do ingresso é uma análise completíssima de como deveria ser o andar do desenvolvimento de um projeto de design gráfico, aplicável a clientes de todos os portes, em todas as áreas. Há também dois contratos básicos para prestação de serviços de design que, se fossem usados, resolveriam qualquer das reclamações que pipocam pelas reuniões, encontros e comunidades de designers ou estudantes como “o cliente me deu bolo e não pagou”, “tá me pedindo para refazer o trabalho vinte vezes”, “o cliente mudou o logo que eu tinha feito”, “não aprovaram o trabalho mas tão usando as idéias que eu fiz!”. Assim como com a tabela, cabe ao profissional ter jogo de cintura para aplicar ou não determinada burocracice a um cliente pequeno, ou relevar o excesso de zelo quando o relacionamento profissional permitir. Jogo de cintura, afinal, sempre foi requisito básico para designers, apesar de não ser tabelável e nem haver software que ensine.

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2 Comentários

  1. João Valèrio Jacinto. disse:

    qual o preço de um design,variam a forma de preço.A expressiva forma do trabalho artístico.Enfim qual a tabela exata

  2. José Marcos Prates Bastos disse:

    Prezado Sr.
    Tenho curiosidade em saber preços de restauração e colorização de fotos antigas.
    Onde posso achar uma tabela de preços assim?