Uma visão sobre o design no Canadá

Por Editor DesignBrasil

Precisamos ajudar a indústria a perceber que o design pode ser uma ferramenta na estratégia de negócios.

É curioso e fascinante estudar as diferenças entre os países e a diversidade de fatores geográficos, humanos e sociais. Investigar os contrastes e aprender com outras experiências é sempre um ganho e, por isso, sigo para a publicação de mais uma entrevista. Depois de Portugal (veja artigo publicado em junho/05), trago agora uma conversa com a canadense Arlene Gould.

Arlene Gould é Diretora Estratégica do Comitê do Design Industrial de Ontário (Canadá), coordenadora, professora no primeiro programa de Gestão de Design do Canadá, na Universidade de Ryerson, e professora adjunta da Universidade de York em Toronto. Ela trabalhou recentemente no projeto Design Exchange, que estabeleceu um museu com um centro de informações em design em Toronto. Infelizmente, o projeto nunca contou com o apoio financeiro necessário para manter o foco. Atualmente, as atividades estão redirecionadas para a educação e promoção dos valores do design. Ela também lamenta que o DX não conta com uma equipe senior para desenvolvimento de um programa de assessoria direta em design para as empresas da região.

Meu primeiro contato com Arlene foi por ocasião de sua visita ao Design Council de Londres. Sua visão de conjunto sobre a indústria do design e o destaque à educação em design no Canadá me despertaram a atenção. Em maio de 2004, a convidamos como palestrante para o International Workshop on Design Support – IWDS, em Cardiff (País de Gales/UK), o que foi também a oportunidade para esta entrevista, agora atualizada para publicação.

Confira a entrevista:

Arlene, você poderia nos dar uma idéia de como o design está organizado no Canadá? Quais são os fatores mais fortes e como eles se relacionam?

Começamos pela educação. Temos graduado um grande número de designers que se formam com um alto nível técnico. A educação em design no Canadá é muito forte e destaca-se na arquitetura, em design de interiores, paisagismo, design industrial, design gráfico e moda. Isso nos dá um grande potencial baseado nas competências em design que desenvolvemos no país. No âmbito profissional, a maneira como os escritórios de design atuam é muito parecida com Estados Unidos e Europa. Minha opinião, no entanto, é de que em 20 anos que eu tenho trabalhado nesta área o mundo dos negócios sofreu mudanças enormes, mas a maneira de prestar serviços em design progrediu muito pouco. Na indústria percebemos que o Canadá tem competências específicas em nichos nos quais o país se destaca. Alguns são direcionados pela tecnologia, mas também existe muito campo em design de varejo, arquitetura, design de móveis e no ramo de saúde e assistência motora. Quanto às iniciativas do governo, houve alguns projetos no passado. Estamos agora tentando reviver alguns programas de suporte em design. Penso que estamos em uma fase de estudo de como montar estes programas, buscando inspiração e conhecimento com a experiência de outros países e nos perguntando o que pode ser feito no Canadá. Nós temos um imenso potencial, mas o desafio é transformar as competências e o conhecimento em prática, em uma referência em assessoria para negócios e competitividade.

Então existe algum mecanismo que presta assessoria em design no Canadá, ajudando empresas a usar design mais efetivamente?

Quando eu era Senior Programme Director no Design Exchange, tentei estabelecer um serviço de assessoria em design com apoio do Governo de Toronto. Os recursos foram cortados dois anos depois do início do programa e nós realmente não tínhamos mais equipe para continuar. Foi realmente uma pessoa apenas acumulando responsabilidades e tentando levar o projeto adiante. Em teoria foi um excelente programa, mas não tivemos a estrutura apropriada para atender o número de pequenas e médias empresas que pretendíamos. Em 2001, a Prefeitura de Toronto Desenvolvimento Econômico estabeleceu o comitê chamado Design Industry Advisory Committee (DIAC), do qual sou diretora, para explorar novas maneiras de fomentar o uso do design na indústria. Até agora completamos com sucesso um estudo sobre o perfil dos profissionais de design em Ontário (www.dx.org/diac) e identificamos problemas e desafios relacionados ao uso do design nos negócios. Esta pesquisa foi financiada pela Human Resources and Skills Development Canada (HRSDC). Desenvolvemos então um plano com quatro estágios para o desenvolvimento da competência em design. Um dos estágios críticos é a implementação do Design for Commercialization Program em Ontário. Outra pesquisa está sendo desenvolvida com a Schulich School of Business, na Universidade de York. Neste projeto estamos documentando histórias de sucesso, com a preocupação maior de identificar pequenas e médias empresas que usam design para ao mesmo tempo otimizar o desempenho em relação ao meio-ambiente e desenvolver a competitividade.

Como o Canadá poderia melhorar os mecanismos de assessoria em design?

A boa aplicação do design é difícil. Precisamos ajudar as empresas a entender como construir e desenvolver o relacionamento com designers de uma maneira que isso as ajude a atingir metas estabelecidas para os seus negócios. E certamente precisamos de mais iniciativas por parte do governo. Eles estão agora reconhecendo que, sim, nós temos o potencial intelectual e profissional de design. Isso poderia ser crítico. Nós precisamos agora de uma iniciativa que ajude a educar as empresas, formar os clientes. Precisamos ajudar a indústria a perceber que o design pode ser uma ferramenta na estratégia de negócios.

Que barreiras precisam ser superadas para elevar a percepção do design no Canadá e também dar oportunidade para que os programas de design tomem espaço?

Penso que cultura é a maior barreira. Precisamos entender os valores culturais da nossa nação e como eles se relacionam com o design. Penso também que estamos ainda vivendo com a imagem do design como uma coisa superficial. O primeiro orçamento a ser cortado em momentos de recessão é o de design. Nós ainda não atingimos um nível que compreende a idéia de que design é realmente uma competência chave. E esta é a razão para educar pessoas e mudar conceitos. Além disso, o Canadá é um país muito grande, onde a geografia e a extensão do território são problemas para programas de assessoria. A colaboração entre as províncias é um desafio para o Canadá.

Falando sobre cultura, design e identidade nacional, você pensa que os programas de design podem ajudar a construir e reforçar a imagem do país?

Com certeza! E isso é algo no que estamos trabalhando atualmente. Canadenses são preocupados com a identidade nacional. Sabe-se que o país não é conhecido por sua produção em design. Temos a imagem do design escandinavo, americano ou japonês, que são muito mais fortes. Quando se pensa sobre o design canadense se é que existe alguma imagem a idéia que se faz é estereotipada e não fiel ao que realmente é.

Como você percebe o futuro dos programas de assessoria em design no Canadá?

Penso que há um grande potencial, novamente devido ao fato de que temos uma excelente massa de profissionais de design. Então a idéia de conectar esta capacidade com assessoria e suporte para as nossas empresas é promissora, especialmente se conseguimos os recursos financeiros para colocar estes planos em prática. Uma das principais oportunidades é que a maioria das consultorias em design são também pequenas empresas e portanto, possuem as mesmas características das MPEs que poderiam ser beneficiadas com suporte em design. Então, estamos buscando novas maneiras eficazes de conectar estes dois pontos.

Como seria um cenário ideal para o desenvolvimento de programas de design no Canadá?

O programa que eu coordeno e no qual leciono na University de Ryerson está treinando profissionais já em certo estágio de suas carreiras para serem Design Managers na indústria. Esperamos que estes profissionais estejam logo em campo trabalhando e ajudando empresas a usar design mais estrategicamente. Mas precisamos também de um programa sustentável, com recursos do governo para encorajar empresas a explorar o uso do design. Talvez, um sistema de incentivo de taxas ou crédito, que force empresas a envolver designers desde os estágios iniciais do processo de inovação e desenvolvimento de produtos. O tipo certo de recursos humanos para realmente implementar os programas é também um fator crítico a ser combinado com este modelo sustentável. Criar os programas e mantê-los em funcionamento é realmente um desafio.

Esta entrevista foi originalmente concedida em inglês e está publicada no SEEdesign Bulletin (www.seedesign.org). Para manter a fidelidade com as idéias originais, algumas palavras não foram traduzidas para o português.

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