You Tá the Brinqueichón?

Por Marcelo Alessandro Fernandes

É o que diz um Joel Santana indignado quando dá de cara com um rapaz falando um inglês incompreensível, na engraçadíssima propaganda da P&G:

You tá the brinqueichón uite mi cara?

Pra quem não viu a propaganda que só foi vinculada na internet, segue o link:

http://www.youtube.com/watch?v=fyJ0cnEvP3o

A propaganda brinca sobre essa tendência das pessoas repetirem expressões em inglês, para se mostrarem conhecedoras de algum assunto do momento. Também nos traz a ideia de que tudo que está atrelado ao uso do inglês, certamente parte de uma perspectiva mais avançada, mais atualizada.

Isso não poderia deixar de acontecer na área que busca os maiores avanços no setor empresarial que é o da inovação.

E lá vem fulano falando sobre o Design Thinking, o Business Design, ações de Futuring e das práticas para geração de startups, como se o inglês avisasse que se trata de coisa nova, fora do comum.

You don´t have ficar por foréichion!!!

De todas as metodologias, que visam trabalhar a inovação, nenhuma tem sido tão disseminada quanto o Business Model Generation, que editora alguma teria a ideia de traduzir para o simplório Geração de Modelo de Negócio.

Talvez você também já tenha ouvido falar, é o bastante conhecido Business Canvas, mencionado por executivos e consultores frequentemente.

Esta metodologia possibilitaria a concepção e a formulação de estratégias inovadoras de negócio, mas não o faz e gostaria de discutir as razões.

Pra quem não conhece, trata-se de um quadro estruturado em nove dimensões ou blocos, que permitiria a análise dos fatores críticos de sucesso de qualquer negócio. De uma fábrica de alta tecnologia a padaria de seu cunhado.

Business Model Generation – Estrutura Básica

 

O objetivo é o de possibilitar uma análise integrada dos processos e ações de negócio, tendo como foco a busca pela diferenciação e inovação.

A ideia central do Business Model é entendermos que a diferenciação junto ao cliente, surgiria da integração sinérgica entre produtos, serviços e processos, gerando barreiras de aprendizado em relação a concorrência.

A concepção é bastante inspirada na integração do modelo de negócio da Apple, principalmente pela referência da plataforma Ipod/Itunes. A Nespresso com suas cafeteiras, lojas e serviços online e os serviços de comunicação oferecidos pelo skype, seriam outros exemplos.

De fato, a junção da tecnologia interativa em produtos e serviços gera uma experiência única de atendimento. Isso tem levado muitas empresas a novos patamares de relacionamento com seus clientes.

Mas, no fundo, o que os autores propuseram foi uma substituição das atuais referências para a formulação da estratégia por um conjunto mais detalhado e atualizado. O pensar e o criar viria de uma associação destas referências, o que simplificaria e daria um sentido de organização ao processo.

Mas isso é muito diferente de trabalharmos com princípios que envolvem a geração e a criatividade, pois nos afastamos das noções centrais de movimento e simultaneidade de aprendizado na experiência de criação.

Os autores creem que encontraram princípios impulsionadores da descoberta e criação, nos principais elementos descritivos retirados dos exemplos de inovação em modelos de negócio. Nesse sentido, a consideração do modelo em seu conjunto, seria o fator preponderante para guiar o processo ideativo.

That´s good, ou melhor dizendo, that´s guuuudi!

Nem tanto, diria eu, e talvez o Joel Santana.

Os problemas estão relacionados tanto aos princípios que balizam o modelo quanto à insuficiência de resultados decorrente da aplicação prática.

Isso porque, esse framework tem como ponto de partida o visual thinking, que por sua vez reflete uma tendência bastante atual de valorização do design (olha o Joel Santana de novo!).

O visual thinking enfatiza um tipo de padrão de pensamento, que se orienta no registro das coisas que compõem a realidade a nossa volta, como se concretizássemos numa folha de papel nossa percepção e todas as associações de ideias em torno destas percepções.

Busca com isso deixar aflorar a intuição de forma que surjam novas conexões e padrões de pensamento de forma livre e desimpedida.

Mas, segundo pesquisas que venho trabalhando sobre a cognição humana, a nossa inteligência também opera, concomitantemente, correlacionando e gerando novos esquemas de entendimento, que por sua vez reorientam a percepção.

É o caso de olharmos um remo “quebrado” dentro da água e entendermos que na verdade a imagem registrada decorre do fenômeno de refração dos raios. Ninguém se confundiria com isso, pois trazemos conosco a explicação do porque isso ocorre. Entendimento e percepção andam juntos.

Nesse sentido as intelecções se libertam da constatação concreta e passam a “subir” para patamares novos, possibilitando a emergência de novas questões e de novas proposições. Os pensamentos vão sendo reinterpretados em novas dinâmicas, que associam imagens e conteúdos de forma muito diversa, se desdobrando por fim em nova compreensão sobre a realidade.

Aqui precisamos entender que o dinamismo da inteligência também influencia as constatações que surgirão no futuro, quando uma sucessão de pensamentos e reflexões encadeadas terão condições de reverter os padrões adotados no presente.

Portanto, o Business Model se limita a um tipo de representação, que considera elementos gerais de uma descrição. É um modelo de fato, nem mais nem menos que isso.

Não traduz o dinamismo que envolve a descoberta. Também não abarca a complexidade da criação, que movimenta nossa percepção para outros patamares. Não fundamenta os juízos de valor de novas decisões, pois esses só decorrem de um processo de afirmação e compreensão de nossa consciência frente a uma nova experiência.

Principalmente falha na apreensão de novos padrões da realidade que estão além do universo organizacional, que possibilitariam captar em forma de insights novas tendências em desenvolvimento no mercado.

Sei que falando assim, pareço estar me distanciando da realidade do mundo dos negócios.

Na verdade acredito justamente no contrário. O jeitão de ser do mundo dos negócios é que fez com que as metodologias cada vez mais se aperfeiçoassem de forma a moldar os seus princípios de funcionamento a algo reconhecível por parte dos executivos.

A questão é que quando os acadêmicos e consultores restringirem o seu campo de pesquisa e entendimento para facilitar a comunicação junto ao seu público alvo, os executivos, acabam também por restringir seu acesso às teorias que explicam a dinâmica do pensar e do criar.

Passaram então a conceber métodos que abarcassem a complexidade a partir de descrições baseadas em generalizações de senso comum, do que acreditavam ser a melhor descrição da realidade destes executivos.

Evidentemente isso trouxe um impacto enorme, principalmente quando essas ferramentas prometem uma resposta nova frente a novos dilemas, mas na quase totalidade das vezes, sem resultados significativos.

Na minha experiência pessoal, utilizando essa metodologia, tive a nítida impressão que seguindo as sugestões das questões destacadas em cada bloco, as equipes passavam a adotar pensamentos padronizados para responder estas mesmas questões. Com isso, acabava por levar a um tipo de pensamento que incorporava padrões vigentes no momento de formulação da estratégia ao invés de redefini-los.

Pela sensação de clareza, integração do conjunto e um rol mais ou menos detalhado de questões, esse método parece ter caído nas graças dos executivos. Para mim, entretanto é mais uma promessa de solução simples para problemas complexos.

Mas isso vale para todas as metodologias que se baseiam em esquemas descritivos da realidade, sejam elas futuristas, desenvolvimentistas ou criativas, pois procuram sempre gerar e aprofundar o aprendizado a partir de estruturas pré-determinadas.

Do you uondersténdi?

1 Comentário

  1. juliana.mayumi disse:

    Muito bom!